'O TEMPO E O CÃO' - TRECHO DO LIVRO

Resgatar a clínica das depressões do campo exclusivo da psiquiatria me parece um desafio ante o qual o psicanalista não pode recuar. O aumento assombroso dos diagnósticos de depressão nos países do ocidente, desde a década de 1970, poderia ser interpretado simplesmente como efeito do empenho da indústria farmacêutica em desenvolver e difundir técnicas de diagnóstico que favoráveis ao uso (quando não ao abuso) dos novos antidepressivos lançados a cada ano no mercado. Mas também pode indicar que o homem contemporâneo esteja particularmente sujeito a deprimir-se. A segunda hipótese não exclui a primeira, mas indica outra abordagem do problema. Embora o tratamento dos casos de depressão não seja normalmente atribuído ao campo da psicanálise e sim ao da psiquiatria, concordo com Colette Soler, para quem a inconsistência do conceito de depressão não deve nos desencorajar a pensar psicanaliticamente os fenômenos depressivos que chegam à nossa clínica.

Tenho constatado em minha prática analítica que aquilo que chamamos, sem grande precisão, de depressão, seja um quadro mais próximo da clínica das neuroses do que das psicoses. Quando um psicanalista ou um psiquiatra referem-se a uma depressão psicótica ou "endógena" é bem provável que se refiram a uma melancolia, não a uma depressão. Isto vale inclusive para as depressões consideradas crônicas, que também podem ser, senão curadas, ao menos tratadas com os recursos da psicanálise. As depressões participam das estruturas neuróticas, mas é preciso tentar compreender sua singularidade. Não se confundem com estados de ânimo tais como tristeza, abatimento, desânimo, inapetência para a vida, embora todos estes participem também do sofrimento do depressivo. Por outro lado, também não se confundem com as ocorrências depressivas esporádicas a que todo neurótico está sujeito em razão de perdas, fracassos ou lutos mal elaborados.

Na clínica psicanalítica recebemos com freqüência pessoas que se queixam de não terem jamais experimentado, tanto quanto sejam capazes de se lembrar, outro modo de estar no mundo que não seja a depressão, com raros intervalos de alívio passageiro. O tipo de endereçamento transferencial de suas interrogações frente ao analista nos leva a concluir que estas pessoas sejam neuróticas; mas o sentimento de vazio que os abate, a lentidão mental e corporal, o abatimento profundo em que se encontram, exigem um pouco mais de cautela em sua avaliação. A questão que se coloca é: o que acontece, na origem de certas entradas na neurose, que abate o sujeito de uma forma tão avassaladora desde muito cedo?

Depois de um tempo de análise, que pode ser mais longo ou menos longo, a estrutura neurótica de um depressivo começa a ganhar nitidez. Entendemos, então, que aquele que se apresentou como cronicamente deprimido participa de uma histeria, ou de uma neurose obsessiva, mas sua depressão teria comprometido desde o início a estrutura, tanto no que concerne à posição do sujeito quanto à formação dos mecanismos de defesa característicos de cada neurose. O que decide, durante o atravessamento do complexo de Édipo, a saída pela depressão (crônica) para alguns sujeitos neuróticos? O que foi que o pequeno sujeito deixou de levar a cabo, em sua constituição, para ter se tornado, antes de um histérico ou um obsessivo, um depressivo?

Entendo que a posição do depressivo decorre de uma escolha, no sentido freudiano de "escolha das neuroses", que se dá no momento em que o pai imaginário se apresenta como rival da criança, no segundo tempo do atravessamento do complexo de Édipo. A escolha precoce do futuro depressivo seria a de se retirar do campo da rivalidade fálica: em vez de disputar o falo com o pai (e perder para ele...), o depressivo teria preferido recuar, permanecendo ao abrigo da proteção materna. Em conseqüência deste recuo, ao contrário do que ocorre no percurso normal do neurótico, o depressivo defende-se mal da castração - a qual, neste ponto da constituição do sujeito, já terá ocorrido, a partir do momento em que o discurso da mãe indica à criança o lugar que o pai ocupa frente ao desejo dela. Ocorre que o futuro depressivo se detém a meio caminho do percurso em que os histéricos e obsessivos definem sua posição fantasmática: ao invés de enfrentar a rivalidade fálica, na tentativa de reverter os efeitos da perda que já ocorreu, os depressivos "escolhem" permanecer na condição de castrados. Isto não significa que tenham simbolizado a castração. Por outro lado, também não se trata das versões imaginárias da castração entendida como privação ou frustração, e sim de abster-se da reivindicação fálica colocando-se ao abrigo da castração infantil. Isto não significa que não existam paixões de rivalidade nos depressivos. Se eles recuam, é porque não admitem o risco da derrota, nem a possibilidade de um segundo lugar. Ao colocar-se ante a exigência de "tudo ou nada", acabam por instalar-se do lado do nada.

O depressivo não enfrenta o pai. Sua estratégia é de oferecer-se como objeto inofensivo, ou indefeso, à proteção da mãe. O gozo desta posição protegida custa ao sujeito o preço da impotência, do abatimento e da inapetência para os desafios que a vida virá lhe apresentar. Além disso, existe um engodo neste ato de oferecer-se como indefeso e dependente da proteção do Outro: ao apresentar-se como alheio aos enfrentamentos com o falo, o depressivo não desenvolve recursos para se proteger da ameaça de ser tomado como objeto passivo da satisfação de uma mãe que se compraz com o exercício de sua potência diante da criança fragilizada. Este lugar, de objeto passivo dos cuidados maternos, não equivale ao lugar do pai como aquele que faz a lei para o desejo da mãe no plano erótico; o depressivo, insisto, é um sujeito castrado.

Ademais, em razão da fragilidade de sua posição na estrutura, este que reage aos enfrentamentos com seu desejo abrigando-se em uma depressão está mais acessível ao saber recalcado sobre a castração do que os neuróticos, digamos, mais bem sustentados em sua posição. Este saber, pelo qual ele evita, precariamente, se responsabilizar, parece ao depressivo ser a causa de seu sofrimento. Não é. A posição do depressivo é conseqüência, além do recuo ante o enfrentamento com o pai, da tentativa de recuar também ante um saber que se impõe a todo sujeito, seja pela via do sonho, do lapso ou do sintoma. É ao tentar ignora-lo que o depressivo se aniquila subjetivamente.

A mesma tentação da demissão frente ao desejo que acomete o neurótico conduz grande parte dos depressivos a buscar salvação em tratamentos medicamentosos. Plenamente apoiados pela ideologia de nossa sociedade científico-mercadológica e pela oferta abundante de antidepressivos, muitos sujeitos buscam em um tratamento exclusivamente psiquiátrico a condição ideal que lhes permita evitar o enfrentamento com suas questões subjetivas. À falta de condições que lhes permitam elaborar o sentido de seu abatimento, muitos depressivos se apressam a concordar com a idéia de que sofrem de algum tipo de déficit. Não há, entre os discursos hegemônicos da vida contemporânea, nenhuma referência valorativa quanto aos estados de tristeza e à dor de viver, assim como ao possível saber a que eles podem conduzir. O mundo contemporâneo demonizou a depressão, o que só faz agravar o sofrimento dos depressivos com sentimentos de dívida ou de culpa em relação aos ideais em circulação.

"O Tempo e o Cão"
Autora: Maria Rita Kehl
Editora: Boitempo Editorial
Páginas: 304

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Um comentário :

  1. EU NÃO SOU NADA PRA NINGUEM ISSO QUE MAIS ME DOI NA VIDA.
    TENHO NAMORADO, FILHOS MAS TODOS OS DIAS AS PESSOAS ME VEÊM.
    MAS NÃO OLHAM PRA MIM DE VERDADE, ELES NÃO PERCEBEM O QUANTO ESTOU SOFRENDO, MEU NAMORADO, NÃO LIGA QUE EU FUME MACONHA TODOS OS DIAS , CONTANTO QUE EU ESTEJA RECEPTIVEL PARA ELE ESTÁ OTIMO ASSIM NÃO FAÇO TANTAS COBRANÇAS, MEUS FILHOS ADOLECENTES, SE EU TIVER COM DINHEIRO NA MÃO TROCAM ATÉ TRÊS PALAVRAS COMIGO, NÃO SAIO NA RUA , E FICO COM RAIVA QUANDO AS PESSOAS FICAM ME OLHANDO FAÇO CARA DE DOIDA PRA ASSUSTAR.
    NÃO SEI O QUE FAZER MINHA VIDA É UMA MONTANHA RUSSA DE EMOÇÕES TODOS OS DIAS.
    GOSTARIA DE VIVER DOPADA ASSIM NÃO PRECISO ENCARAR MEUS EROS.
    AS VEZES PASSO MAIS DE UMA SEMANA SEM SAIR NA RUA, NEM PRA COMPRAR COMIDA.
    A VIDA É UM SACO.

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