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LIVROS TRATA DE SUICÍDIO E ESPIRITUALIDADE

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A roteirista e escritora carioca Lygia Barbiére Amaral é casada e mãe de quatro filhos - Sophia (12 anos), Alice (9 anos), Estevão (6 anos) e Miguel (7 meses). Morando há 15 anos em Caxambu (MG), formada em jornalismo, pós-graduada em teatro e com mestrado em literatura brasileira, ela se apaixonou pela literatura ainda menina, o que a motivou mais tarde, inclusive, a ser professora de língua portuguesa. "Mas sempre soube que iria escrever”.
Autora de obras de sucesso, entre elas O jardim dos girassóis, a autora entrelaça as ideias espíritas em emocionantes histórias de personagens que se envolvem com dilemas existenciais, como síndrome do pânico, alcoolismo, depressão, regressão de memória e suicídio.

Lygia Barbiére lança agora pela Editora Correio Fraterno uma nova edição, revisada e ampliada, do seu consagrado romance A luz que vem dentro. E faz questão de salientar que seus livros não são psicografados, mas frutos de muito trabalho e suor. Acompanhe sua entrevista.

Você relaciona o suicídio com obsessão. Isso é sempre uma verdade?
Acho que sim. A Laura [personagem principal de A luz que vem de dentro ] estava obsediada quando se suicidou. Ela entrou numa sintonia negativa. Acredito que cerca de 80% dos suicídios sejam causados por obsessão. É uma questão de instantes, às vezes; em outras, uma ideia que fica nos perseguindo.

Você se baseou em caso verídico para escrever seu livro A luz que vem de dentro? Por que a abordagem desse tema?
Quando tive a minha filha Sophia, ela não queria mamar no peito. Foi um desespero pra mim, que tinha me programado para ter parto normal, amamentar. Até dois meses,tentamos tudo o que era possível. Ela ia ficando magra, com aspecto de doente e eu desesperada, até que tudo se resolveu. Depois de um tempo, um casal de amigos dos meus pais foi nos visitar. Contaram a história de uma moça que também não havia conseguido amamentar, entrou em depressão e se suicidou. Pensei: Meu Deus, coitada, ela não conseguiu vencer. Aquilo me doeu muito e decidi estudar sobre suicídio. Queria ajudar, e, na medida do possível, fazer alguma coisa para que outras pessoas não fizessem o mesmo.

Você sentiu a ajuda da autora Yvonne Pereira para escrever esse romance?
Acho que sim. Eu rezava muito para ela me ajudar. Em geral, quando escrevo, tenho sempre muita ajuda. E agradeço muito a Deus por isso.

Suas obras não são psicográficas; exigem muito trabalho de pesquisa. Quanto tempo você leva para escrever um romance?
Leio em torno de 200 obras para cada romance que escrevo, para depois poder pesquisar e relacionar os itens necessários à história. Para escrever A luz que vem de dentro levei nove meses. Realmente A luz veio à luz. (risos)

E por que exatamente esse título?
Porque somente a luz que vem dentro é que pode ajudar tirar as trevas em volta de nós, que geram tanta dificuldades e compromissos. Há um trecho na história em que um dos irmãos da moça que se suicidou encontra um bilhete que ela mesma deixou para ele há muito tempo, onde diz que ele tinha que achar a luz que vem de dentro, encontrar a solução dentro dele. Isso ilustra que o suicídio é uma questão de envolvimento de um momento da pessoa. A moça, no caso, já havia pensado um dia iluminadamente. Há pessoas que se revoltam, que julgam, mas é preciso ter compaixão do suicida, porque isso pode acontecer com qualquer um de nós.

Mas ainda se fala meio de lado sobre casos de suicídio. Por quê?
luzpequena
Isso passa pela cabeça de muito mais pessoas que você imagina. E muitas vezes não se quer falar sobre o assunto por próprio medo. Porque, na verdade, o que mais nos incomoda no outro é o que justamente se tem. A psicologia diz isso. E quem não passa momentos difíceis em que surge a ideia de desistir da luta?

O suicídio é isso, para você?
Sim. É você desistir da oportunidade que tem de crescer e aprender na vida. É você acreditar que não consegue mais. É preciso saber que nada está fora do lugar. E que estamos preparados para dar conta do recado, inclusive da dor por que passamos.

Mas o senso comum diz que devemos falar apenas de coisas boas, para não cairmos em vibração negativa...
O conhecimento da vida, numa visão aberta para a espiritualidade, só ajuda você a pensar antes de se enganar, de se desesperar. Acho que o suicídio, principalmente, acontece muito mais porque não se conversa a respeito das tristezas, das angústias. Quanto mais eu puder externalizar, mais possibilidades terei de me sentir acolhida, de pedir ajuda para outras pessoas.

Na sua opinião, falta contato entre as pessoas. Está faltando ombro amigo?
Sim. Não podemos esquecer que um desespero, uma desilusão, pode desencadear o suicídio numa fração de segundos. No Congresso Espírita de Brasília, uma mensagem de Yvonne Pereira mostrou que um grupo de suicidas foi desarticulado durante o evento e que eles queriam levar mais gente dessa forma. Ela fala que o momento que atravessamos é seriíssimo. Há alguns espíritos que, depois que cometem o suicídio, querem levar outros para a mesma situação, por vingança, diversão ou ignorância, porque ainda não despertaram para a luz. Eles se aproveitam dos nossos momentos de fraqueza.

Por que há tanto suicídio?
Porque precisamos ter uma visão mais espiritualista da vida. Descobrir e compreender realmente o que estamos fazendo aqui. Não estou na Terra apenas para comprar roupas, sapatos, carro novo, ir para churrasco ou balada. Os valores estão muito deturpados; muitas vezes nem são passados de pais para filhos. Muitos não dão conta de criar, quanto mais de passar valores. Aí se sentem culpados e substituem essa tarefa por dar coisas, presentes . Que, contudo, não tapam o vazio que fica, a falta de esperança, de perspectivas, de crença em si mesmo, nos próprios valores. O homem veio ao mundo para servir e ser útil. Quem se sente útil não pensa em suicídio.

Você concorda que muitas pessoas se decepcionam com a falta da felicidade ilusória estampada nas capas das revistas: a mãe perfeita, a mulher sensual, o executivo bem-sucedido, a família feliz...
Não podemos nos entregar a essa ilusão, senão tudo fica muito superficial. Ao se viver esse mundo de Hollywood, acaba-se deslumbrado , perdendo-se a noção da tarefa, do que se veio fazer aqui. Quando você está fazendo aquilo para o que veio, você se sente bem com você mesmo e com o próximo.

Que solução você daria para a sociedade materialista, que valoriza o glamour, a posse, o poder ?
Perceber que tudo isso é transitório. Como digo sempre a meus filhos, você não pode levar um sofá para o mundo espiritual. Nem um computador. São coisas materiais, que fazem parte deste contexto de vida aqui. Mas a nossa sociedade, infelizmente, valoriza tanto o material, o ilusório que o desejo de felicidade acaba se desvirtuando.

Nas suas pesquisas, o que mais lhe chamou atenção?
Em 2001, o suicídio já era considerado a terceira causa de morte de jovens no Brasil, perdendo apenas para homicídios e acidentes de trânsito. A mesma reportagem informava os jovens tinham entre 15 e 24 anos e que este número havia aumentado cerca de 40 por cento só entre 1993 e 1998. Pelo que li recentemente, o quadro só piorou de lá para cá.

Não seria uma desistência do espírito, quando ele começa a assumir as suas tarefas, a sua reencarnação?
Não sei. Acho que também é muita droga e muito álcool. Eles acabam se destruindo, ficando muito loucos, assediados por obsessores. Bebem antes de ir pra balada, durante e depois; se drogam até se sentirem fora da realidade, para “ficar bem”. Depois pegam o carro, correm e morrem. Quando não, vão ficando desequilibrados em meio a tantos devaneios. E aí as portas realmente se abrem. Foi uma escolha.

Você sente saudades de seus personagens?
Alguns realmente marcam a gente. A Laura [de A luz que vem de dentro], por exemplo, era bailarina. Ela se joga de um edifício. No mundo espíritual, percebe que para voltar à reencarnação, precisará valorizar o que destruiu . Em determinado momento da história, ela pergunta ao médico sobre suas dificuldades, limitações futuras: “...mas eu nunca mais vou poder dançar?” Isso me emocionou muito. Passado algum tempo, fui a um espetáculo de balé. Chorei tanto! Parece que eles ganham vida própria depois que a gente acaba o livro. A gente sente saudades.

Como você costura suas histórias? O que é, afinal, escrever um romance?
Eu tenho regras. Fiz o curso de oficina de roteiros, na Globo. Tenho formação para escrever telenovelas. Há a parte técnica, determinados pontos que têm que ser marcantes na história para se criar suspense, os ganchos, os pontos fortes. Desde o começo sei qual o fim a que quero chegar. Um romance, por exemplo, não pode ter apenas o tema central. É preciso que se relatem outras histórias sobre outros temas interessantes, que despertem a leitura, como se fizéssemos uma linda embalagem para presente, criando curiosidade, expectativa.

E o que você tem a dizer sobre quem critica os romances espíritas. Eles aproximam ou distanciam da realidade?
Não se trata de uma ilusão. Os meus romances são baseados, sim, na vida real. Como fazia Janete Clair, eu busco um fato atual, um recorte da vida e trago para dentro do tema que quero explorar. Há um preconceito muito grande com relação aos romances. Fico profundamente incomodada quando ouço: ah, não se pode só ler romance, tem que estudar para entender o espiritismo. Ora, assim como existem as mais diversas religiões para as mais diversas pessoas e tipos de entendimento, assim também é com a literatura. O romance é uma maneira mais fácil de se assimilar conceitos. E para isso, tenho todo um trabalho como escritora. O maior elogio que posso receber é saber que uma pessoa que nunca leu, começa a se interessar por leitura, ao ler um dos meus livros. E o meu objetivo é dar a minha contribuição ao maior número de pessoas.

E no caso do suicídio...
Se eu conseguir passar alguma informação para que as pessoas saibam como é o suicídio e pensem duas vezes antes de fazer qualquer coisa, já vou ficar muitíssimo feliz. Que a história consiga ser uma ruptura no pensamento, porque o conhecimento faz o contraponto na hora de qualquer impulso. Meu objetivo em todos os livros é fazer as pessoas pensarem, terem a informação espírita. O objetivo não é dar lição de moral. Cada um conclui o que quiser. Passo a minha leitura sobre os temas e divido com o leitor.

Você se angustia quando escreve? Como é o sentimento do escritor enquanto está desenvolvendo uma obra?
É muito difícil. Mas escrever, para mim, sempre foi uma necessidade. Lendo entrevistas de grandes escritores, Jorge Amado, Rubem Braga, que descrevem exatamente aquela angústia que sinto, vejo que faz parte. Quando a gente nasce com isso, tem que escrever , porque se não colocar para fora, começa a intoxicar e você acaba adoecendo. Quando estou criando, tudo está ótimo. Quando escrevo um capítulo legal, fico feliz, porque consegui fazer o meu trabalho. Em compensação, no dia em que não rende sinto uma tristeza profunda, uma sensação de incompetência, fico zangada comigo mesma. É muita pesquisa, muita transpiração. Claro que há a inspiração, como em quaquer trabalho. Tenho uma ajuda imensa da espiritualidade, à qual tenho uma gratidão sem tamanho. Mas meus livros não são obras psicografadas. Tenho certeza. Fico megulhada na vida dos personagens , tentando compreender o universo de cada um, buscando a coerência das suas reações. Quando encerro uma história, choro. É uma despedida em todos os sentidos. Você sente que existe além dos personagens toda uma equipe espiritual que trabalhou junto e que ela também termina seu trabalho e vai embora. É muito emocionante, como as cenas de bastidores de último capítulo de novela. Fico em estado de graça.

A quem você recomenda esse seu livro?
A todos os que tenham vontade de entender um pouco sobre o tema. Procurei falar de uma maneira bem ampla, como para onde vão os suicidas, como é a organização, o que sentem, como se recuperam e o que podemos fazer por quem, infelizmente, se suicida. E que não existe aquela história: não posso fazer mais nada por aquela pessoa que já se foi de uma maneira tão triste. Não. Pode-se fazer ainda muita coisa, através do auxílio da prece, enviando-lhe fluidos positivos que a desperte para recomeçar. Nada está acabado. Também é próprio para qualquer idade. Minha filha de doze anos está lendo A luz que vem de dentro. Foi uma iniciativa dela, fiquei preocupada se era a hora certa. Mas ela parece tão empolgada, tão satisfeita que acabei percebendo que era uma decisão que não cabia a mim. Acredito que os livros – todos os livros – têm o “poder mágico” de atrair quem está precisando deles.

A partir do jornal Correio Fraterno. Leia no original
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Nota : João Casmurro

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