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'MINHA DEPRESSÃO, UMA PERENE TORMENTA INTERNA'

Chico Buarque, no auge da ditadura militar no Brasil, escreveu uma linda música: O que será, falando sobre a paranóia daqueles tempos bicudos. Lá no final da letra, Chico escreve com maestria: E mesmo padre eterno / Que nunca foi lá / Olhando aquele inferno / Vai abençoar! / O que não tem governo / Nem nunca terá! / O que não tem vergonha / Nem nunca terá! / O que não tem juízo...

Apesar de estar falando sobre um momento específico na história do Brasil, a letra de Chico me salta aos olhos por outro problema. Neste trecho, parece desnudar um problema que muita gente no mundo, inclusive eu, enfrentamos: o problema da depressão.

Infelizmente não se achou uma cura efetiva para este mal. Aliás, nem sei como andam as pesquisas a respeito. Sei que no meio secular esta questão está sendo tratada com muito mais atenção e carinho que no meio cristão. Para quem nunca teve esta experiência, descrevê-la se torna um pouco inglório. Para ilustrar, a depressão é como um bicho que vai roendo o corpo por dentro, a partir das entranhas e da mente. Com sua saliva ácida, vai corroendo a mente e o corpo da pessoa, até que não reste muita coisa. 


Ou seja, aos poucos, a pessoa vai se zumbificando. A vida se torna um fardo. O fato de saber que vai levantar no outro dia torna o sono algo ruim. Para piorar, somos mestres em jogar mais carga nos ombros de quem sofre de depressão. Damos sempre aquelas desculpas esfarrapadas para disfarçar nossa indiferença e individualismo com um manto de falsa santidade (...).

Enquanto produzia este texto, fui acometido de uma forte crise depressiva. Nesta crise, a fé se esfarelou, a visão de futuro sumiu, a esperança deixou de existir. Não fosse a pronta atuação de minha esposa, eu teria me matado. Ainda estou lidando com os cacos, mas a nuvem negra sobre minha cabeça já começou a dissipar, e consigo ver já alguma coisa à frente. A fé ainda está bem machucada, mas espero que venha a se recuperar plenamente.

Aquele inferno do Chico Buarque era, certamente, as entranhas do governo militar dos anos 70. Mas aquele inferno de muita gente, em vez disso, é sua permanente angústia e desassossego. É aquele inferno que carrego. Não tem demônios, mas tem a psique entortada; não há fogo e enxofre literal, mas uma perene tormenta interna.

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Nota : João Casmurro

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