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POR QUE EVITAMOS FALAR EM SUICÍDIO ?

Medo de contágio, sensação de culpa e ignorância criaram um nocivo tabu social. Chegou a hora de tratar o assunto como uma questão de saúde pública


Outra linha de ação que começa a ser adotada no Brasil está nos núcleos de apoio aos familiares. O ComViver é um projeto piloto no Rio de Janeiro, financiado pelo Ministério da Saúde. O trabalho começou há cinco meses e, durante esse período, 71 pessoas já foram atendidas. Duas psicólogas fazem o atendimento individual e em grupo dos familiares, chamados por elas de "sobreviventes". Os interessados recebem tratamento gratuito. Quando procuram a organização, são atendidos sozinhos. Depois, passam para a terapia em grupo. Hoje, oito parentes de suicidas estão sendo atendidos. "É importante o tratamento em grupo porque a maioria acha que isso só acontece com eles", diz Ana Maria Ferrara, uma das coordenadoras do ComViver.

Ela afirma que é imprescindível levar a sério qualquer ameaça de suicídio. "Se uma pessoa está dizendo que quer se matar é porque está precisando de ajuda. É preciso ouvir e ajudá-la a resolver seus problemas." A psicóloga aconselha a impedir que o amigo ou parente tenha acesso a objetos e remédios comumente usados em tentativas de suicídio.

Isabel Quental, outra coordenadora do projeto, diz que as famílias de suicidas freqüentemente se sentem culpadas pela morte. "A família se envergonha e se recolhe, porque acredita que falhou em sua missão de cuidar dos seus." Segundo ela, o luto pelo suicídio é muito maior que o das outras mortes. Enquanto a recuperação pela perda de um parente dura de seis meses a um ano, em média, a dor pela morte por suicídio pode até mesmo atravessar gerações. "Já atendemos casos de pessoas que não se recuperaram de suicídios de parentes que aconteceram há dez anos." Às vezes, os parentes de suicidas ainda sofrem o estigma social. "Já tivemos relatos de mães que foram apontadas por pessoas que disseram: 'Aquela é a mãe do suicida'."

Isabel diz que o sentimento de culpa aumenta porque é muito freqüente um suicida repetir a ameaça várias vezes, sem concretizá-la. Ou fazer tentativas frustradas antes de consumar o ato. "Nesse período, é comum o familiar pensar que, se a pessoa morresse, seria melhor, porque se livraria de ter de cuidar do outro. Quando a morte vem, a culpa é enorme."

A falta de informações sobre o tema acaba contribuindo para que o suicídio seja tratado como um tabu e as famílias sejam vítimas de preconceito. "Quem, num momento de sofrimento, nunca pensou que seria melhor sumir?", diz Ana Maria. "É por isso que o suicídio assusta tanto, porque qualquer um de nós é tentado a cometê-lo." Ela afirma que os homens são as maiores vítimas do suicídio porque se sentem muito cobrados e têm mais dificuldade de compartilhar seus problemas. "O homem é mais inflexível diante do sofrimento. É muito mais exigido socialmente que ele seja forte. É difícil para um homem pedir ajuda." Dos oito pacientes que buscam apoio do ComViver, apenas dois são homens.

Parte do estigma que as famílias sofrem vem da crença de que os suicidas sempre dão sinais claros de suas pretensões e a família não dá atenção às pistas. Não é verdade. O projeto ComViver já atendeu, por exemplo, a mãe de um adolescente que se matou porque era cercado de cuidados demais. "Ele simplesmente não conseguia encontrar um espaço para ser ele mesmo. Isso prova que não existe um padrão para o suicídio, cada caso deve ser analisado separadamente", diz Ana Maria.
40% dos suicidas procuraram o serviço médico com alguma queixa apenas uma semana antes da morte
Para ampliar o debate sobre o tema, o Ministério da Saúde prepara um guia para jornalistas, a fim de orientar sobre a melhor maneira de noticiar o assunto. A imprensa evita publicar suicídios temendo o que os especialistas chamam de "efeito Werther". O nome remete ao personagem de um livro de Goethe, publicado em 1774. As Desventuras do Jovem Werther relata a história de um jovem apaixonado por Charlotte, mulher casada e feliz. Werther, inconsolável, se mata. Historiadores relatam que o livro foi proibido em vários países por causa de uma súbita epidemia de suicídio entre jovens. O efeito contágio existe, diz o médico D'Oliveira, do Ministério da Saúde, sobretudo quando um astro pop ou um líder carismático tiram a própria vida. Os jovens são o grupo mais vulnerável e influenciável. Para sentir-se estimulado, basta saber o que aconteceu, não importa muito ler a respeito, segundo D'Oliveira.

O jornalista Arthur Dapieve decidiu investigar a relação da imprensa com o suicídio. Sua dissertação de mestrado, defendida na PUC-Rio, virou o recém-lançado livro Morreu na Contramão - O Suicídio Como Notícia. "Eu queria saber se era um medo inventado pela imprensa", diz Dapieve. "Em 2004, por exemplo, o jornal O Globo registrou apenas três casos de suicídio em todo o Estado do Rio. Houve muito mais que isso", afirma. "Mas a imprensa só reflete a sociedade à qual ela serve, e essa sociedade tem medo de tocar no assunto." Parte do silêncio se deve à crença de que o relato de casos pode ajudar a criar uma espécie de efeito Werther. Essa quase unanimidade está sendo rompida pela visão de que é melhor debater o problema que se esconder dele. O consenso que começa a se construir é que a sociedade não pode mais negar sua atenção ao suicídio.

Saiba mais em:
Centro de Valorização da Vida
http://www.cvv.com.br


Ministério da Saúde
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/


Núcleo de apoio aos parentes e amigos
www.projetocomviver.org.br
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Nota : Editor

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