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DEPRESSÃO NEM SEMPRE ACARRETA PENSAMENTO SUICIDA


Na semana passada, Andreas Lubitz, copiloto num voo da empresa aérea Germanwings, de Barcelona a Düsseldorf, parece ter jogado propositalmente o avião contra os Alpes franceses, matando todos os ocupantes –passageiros, tripulação e ele mesmo. Existem mais que uma dúzia de casos em que se suspeita que pilotos ou copilotos tenham provocado desastres aéreos intencionalmente. 

Os usuários de transportes coletivos se sentiriam mais tranquilos se a gente encontrasse uma explicação. Mas não é fácil: as autoridades são avarentas com suas informações, e a pressa não é boa conselheira.

1) A imprensa destacou o depoimento de uma ex-namorada de Lubitz, segundo a qual, no passado, ele teria dito: "Um dia, farei algo que mudará o sistema, e então todos saberão meu nome e se lembrarão de mim". Talvez a gente encontre uma declaração de Lubitz afirmando que destruiria um avião para ficar famoso.

Mas, até lá, fala sério: quase todos os homens entre 15 e 30 anos pronunciaram ao menos uma vez uma frase parecida para sua mãe, para seus amigos, ou para uma menina que eles esperavam impressionar. Só uma parte pequena dos que falam isso se engaja em assassinatos em massa.

2) Sete anos atrás, Lubitz passou por um tratamento psiquiátrico e psicoterápico durante um tempo (um ano?).

Quase briguei com duas amigas queridas: elas exigiam que, por decreto, ninguém pudesse passar por um "tratamento psiquiátrico" e se tornar piloto.

Claro, em tese, ninguém ganha um brevê de piloto sofrendo de um transtorno grave da personalidade. Mas "tratamento psiquiátrico" é uma expressão MUITO genérica.

Até 1980, a homossexualidade era considerada como um transtorno psiquiátrico –suscetível de ser tratado; portanto, o brevê de piloto deveria ser proibido aos gays?

Ou, então, seu psiquiatra lhe prescreveu, sei lá, Clonazepam sublingual de 0,5 mg porque você estava tenso durante os exames finais de sua formação. É um tratamento psiquiátrico. Você deve ser excluído de sua profissão por isso?

E se você estiver deprimido? Deveria ser impedido de pilotar um avião?

Note-se: poucas depressões acarretam pensamentos suicidas. E, de qualquer forma, esses pensamentos não transformam ninguém em assassino em massa.

Ou seja, muitas pessoas passam por episódios depressivos e, com remédios e psicoterapia, continuam perfeitamente funcionais no exercício de sua competência, seja ela qual for. Em suma, "tratamento psiquiátrico" não equivale a invalidez.

3) No dia da catástrofe, o copiloto tinha um atestado que o dispensava do trabalho –que ele não usou. Talvez fosse por uma gripe, mas imaginemos que fosse por uma condição psíquica.

Minhas amigas pedem que o médico particular que assinar um atestado seja obrigado a informar o empregador de seu paciente.

Se o médico, o psiquiatra ou o terapeuta se tornarem informantes do empregador, quem ainda pedirá ajuda para quem quer que seja?

4) Então, o que aconteceu com Lubitz? Não sei, mas Sansão era invencível enquanto obedecia a Jeová e enfrentava os Filisteus. Se apaixonou por Dalila, uma mulher filistina, que desvendou o segredo de sua força e o traiu.

Cego e escravizado, Sansão foi mostrado ao povo filistino. Enquanto ele era o objeto de escárnio de seus inimigos, pediu que o Senhor lhe devolvesse sua força por um instante e derrubou as colunas do templo de Dagom, dizendo: "Morra Sansão com todos os Filisteus".

A Bíblia comenta que ele matou mais inimigos na sua morte do que na sua vida. A história é complexa, leia: Juízes, 13-16.

Os exegetas bíblicos acham que não foi um suicídio –porque Sansão morreu indiretamente, se envolvendo no desastre (legítimo) que levava a seus inimigos, e porque o ato foi impulsionado pelo Espírito Santo.

Em 1989, I. Kutz publicou um artigo, no British Journal of Medical Psychology, sobre o "complexo de Sansão".

Oferecendo a história de um paciente como exemplo, Kutz propunha que o herói bíblico se tornasse símbolo de um traço de personalidade pelo qual a traição da amada e o ludíbrio público podem levar alguém a uma vingança contra o mundo e contra si próprio.

A história de Sansão, de fato, é um exemplo clínico menos simplório do que a ideia de um Lubitz deprimido e suicida.

Seja como for, um comportamento como o do copiloto é dificilmente previsível. A única providência sensata é fazer com que ninguém nunca fique sozinho na cabine de pilotagem de um avião. 

Cottardo Caligaris
A partir da Folha de S.Paulo. Leia no original
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Nota : Editor

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