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TRECHO DO LIVRO 'OS SUICÍDAS"

Primeira parte
Os dias carregados de morte

O meu pai pôs fim à sua vida numa tarde de sexta-feira.

Tinha 33 anos.

Na quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade.

Embora a tia Constanza, com reserva mas sem tato, tenha mencionado esta coincidência, não voltei meu pensamento a ela até hoje, já que o tema, de certa forma, saiu ao meu encontro.

Na agência, o chefe me disse: "Pode ser a sua chance".

Sem requerer consentimento, ele me introduziu na tarefa. Sobre a escrivaninha, esparramou três fotografias e me incitou a descobrir o que possivelmente ele já havia observado.

- O que vê nelas?

Considerei que esperava de mim uma dedução fora do comum. Inclinado, examinei as fotos, que tinham, cada uma, um corpo humano, deitado e vestido. Eu disse:

- Vejo que estão mortos, os três.

- Não é uma resposta muito sagaz.

Aceitei sua mordacidade como uma advertência de que devia ver melhor, e rápido. Incomodou-me, mas transigi, mais pelo pressentimento de que começava a decifrar. Indiquei:

- Uma é mulher, dois são homens.

Realcei, lentamente, como se custasse a se inteirar. Prossegui, sem pressa:

- Ela e este outro conservam os olhos abertos. O terceiro, não.

- Oh! - disse o chefe, deixou de lado a escrivaninha e caminhou.

Então pensei que não sou um gozador e já bastava porque ele também podia dizer basta. Eu disse:

- Aqueles que estão com os olhos abertos continuam olhando...

O chefe se deteve, eu também.

Senti que entendia e que me importava o que havia entendido:

- Olham... como se olhassem para dentro, mas com horror.

Não precisava de sua aprovação - um som que me lançou -, nem o silêncio com que propiciou a impressão de que faltava alguma coisa. Sim, na minha mente havia um sinal, confuso, até que pude afirmar:

- Estão espantados, têm o espanto nos olhos e, no entanto, em suas bocas se esboçou uma careta de prazer sombrio.

Não duvidei de que havia acertado, que lhe havia ampliado a visão. Isso já bastava. O que em seguida, com urgência, eu precisava saber era o que lhe perguntei:

- Foram mortos?

- Não, se mataram.

 *   *   *

Era o embrião de uma série de matérias. Um embrião disforme.

Discutimos a série: história dos dois casos dos olhos espantados. Não conhecemos a história. Alguém, um profissional respeitável, proporcionou as fotos; não pode nos ajudar nem nos dizer quem são nem quem as tirou. Dois casos não dão para uma série. Mas a sua história é necessária. É preciso averiguar, pesquisa própria.

A polícia não vai colaborar. Pode-se experimentar. Não vai colaborar, não informa sobre suicídios. A publicação provoca o contágio. Suicídios por imitação, epidemia de suicídios, peste de suicídios.

Por que o horror introspectivo? Por que o prazer sombrio? Por aí se pode generalizar, mais material para mais matérias, a série, se confirmarmos a generalização. Sim. Não pode ser a história de dois, ou duas histórias que deixaram de ser notícia. Precisamos de casos frescos. Será preciso esperar. Esperar o quê? Que se produzam, e ver. Não, não se pode esperar, dispõe de dois meses. Temos pronta a circular para oferecer a série para os jornais. Podemos vendê-la para trinta vespertinos e três revistas coloridas. Quer que a matéria seja sensacionalista? Não, séria. A nossa agência não é sensacionalista. Como o senhor disse, vespertinos... Eu disse só isso. Para as revistas, você vai precisar de slides. Por que só as revistas coloridas? Pelo sangue, para que se aprecie o vermelho; senão, é preciso marcá-la com uma flecha e explicar na epígrafe, e se perde. Tem razão. Trabalhe com a Marcela. Por que a Marcela? Lembra, a reportagem do avião caído na cordilheira. Sabe se arriscar. Neste assunto não haverá riscos, vamos lidar com mortos. Não haverá? Assim espero. Quem sabe.

Recorro: Seria melhor o Pedro, eu preferiria trabalhar com um homem. Manda: Não, a Marcela.

Sem dizer, penso na Marcela como num negócio particular.

É ascética. É quase nova na agência e mal a conheço. Não nos gostamos. Não gosto dela, soltei por aí. Alguém me perguntou por quê. Eu disse: "Tem 30 ou 32". Anos, eu quis dizer.



Saio e me alivio. O verão me deslumbra. Me deslumbra e rapidamente deixa o meu corpo pegajoso.

Uma blusa com interiores vem pela calçada. Eu poderia lhe dizer alguma coisa. Outra, decotada. Nada digo a esta tampouco, é inútil para o vínculo, passam; mas eu a olho, quem sabe como, porque uma senhora me olha. É a censura e pretende me acuar.

Penso na série. Terei de ver pessoas que não me importam, porque não são as que fizeram; pessoas prevenidas, arredias (talvez a Marcela me ajude a chegar a elas; em seu estilo é um chamariz, tem 30).

Ponho o pé no caixote do engraxate.

E terei de falar, falar disso.

Penso no meu pai. Eu era como este menino, o engraxate, pequeno assim. Soube que ele havia morrido, ignorava como. Chorei até secar, dormi, acordei, a cerimônia continuava, as visitas sussurravam. Alguém, possivelmente a minha mãe, clamava: "Morte injusta!". Compreendi a história do injusta - deixava-nos sem ele -, mas não pude entender como a Morte se introduziu em casa e se apoderou do meu pai. Porque de manhã ele estava vivo, de pé e são como qualquer um de nós, e morreu de tarde, enquanto havia sol, e eu tinha o convencimento de que a Morte era uma figura sinistra que dava seus golpes na escuridão da noite.

Pergunto, ao menino que engraxa os meus sapatos, o que é a morte.

Ele levanta seus olhos marrons e me considera, de cima a baixo, entre surpreso e intimidado, embora não pare de escovar.

A minha pergunta foi excessivamente abstrata. Eu me corrijo e sorrio, para atraí-lo:

- Nunca morreu alguém que você conhecia, um vizinho, um tio?...

O menino se encurva sobre o seu trabalho, concentra-se e diz:

- Sim, o meu pai.

Emudeço.

Ele me espia, com curiosidade: advirto que não me rechaça. Procuro estabelecer - comecei a minha tarefa? - o que ele conhece dos alcances da morte, onde supõe que está aquele que morre.

Responde que o pai está num nicho, mas a mãe, no início contava que ele tinha viajado, e agora diz que ele está no Céu. Ele não acredita. Não acredita no Céu? No Céu sim, mas o Céu é para os bons e o pai batia na mãe.

Estou passando um dia carregado de morte. É suficiente. Entro num cinema onde está passando Alphaville. Trabalharei amanhã.



No entanto, de noite, separado da Júlia, embora junto dela, repasso o que disse o engraxate e noto que, definitivamente, não cheguei de volta à interrogação inicial: o que é, para um menino, a morte?

Peço para a Júlia que averigúe isso entre os seus alunos, na escola. Ela se alarma, defende-se, ofusca-se. Explico, apaziguo.

A série, o meu trabalho...

Nega-se obstinadamente. Diz que não é normal.

"Eu não sou normal?...", e a desconcerto.

Sei perfeitamente que ela não disse isso.

 *   *   *

Tomo café-da-manhã com a minha mãe. Habitualmente, é o único momento que passamos reunidos.

Ela me conta que se encontrou com a Mercedes, sua amiga,

e a dona Mercedes lhe disse: "Não tenho família, tenho televisor". Eu objeto: "Tem filhos e netos, e vive com eles".

- É, mas a deixam sozinha: entram e saem; jantam com o televisor ligado.

Não é uma recriminação para mim, embora eu possa deduzir uma moral.

O calor, que está se apoderando do dia, me altera. A minha mãe repara. Baixa persianas, oferece-me o ventilador.

Acredito que a minha mãe é a única pessoa que gosta de mim.

- Eu gostaria de viver num país com neve - diz.

Ela sempre disse isso. Eu, de minha parte, ofereci-lhe umas férias de inverno. Anualmente renovo o plano.

Repito: "Este ano iremos".

- Aonde?

- Para a neve.

- Ah, é. Sim, filho, iremos.

Em algumas manhãs ela se opõe e me diz para economizar para o carro pequeno. "Você precisa, é para o teu trabalho."

Isso me deprime, outros conseguem: carro e neve.

O meu irmão, que tem um Fiat 1500, oferece:

- Posso te levar?

A minha mãe compreende que a sua ração diária desse filho terminou e se entristece. Eu percebo, mas a minha vida está enredada com a rua.

O meu irmão beija o seu filho e a sua filha e o segundo menino e o terceiro menino. O terceiro traz nas mãos, bem destruída, Minotauro 7. Reconheço-a pelos pedaços de capa. Dou-lhe um bofetão e tiro a revista dele. A minha cunhada, da porta da cozinha, diz: "Maurício!", mais nada. Dá o alarme ao marido, reclama com ele, por causa desse irmão que o marido tem.

O meu irmão se abstém. Diz: "Calma", como um magistrado.

No caminho, não fala.

Um imprudente se mete e se salva porque o Maurício cravou os freios. Podia insultá-lo, com todo o direito; não o faz, eu o faço.

Normalmente não insulto ninguém, exceto aos sábados.

 *   *   *

A Marcela é do turno da tarde. Não poderei vê-la até as 4. Sem dúvida, não está sabendo que vão colocá-la comigo.

Aceituno, o cronista da agência que atua no Departamento Central de Polícia, não liga as fotos com acontecimentos dos quais ele se ocupou. Ele as faz circular entre os colegas da sala de jornalistas e as imagens voltam ao meu poder sem suscitar nenhuma lembrança entre os especializados.

Aceituno me vincula com a polícia científica. Deixa-me com o chefe.

Solicito colaboração informativa para a agência. A agência terá toda a colaboração de que precisar, a menos que se trate de causas pendentes de decisão judicial, delitos em investigação reservada, abusos morais contra menores e suicídios.

Eu não mencionei, ainda, as fotografias. Farei que não estou entendendo que elas se enquadram nas exceções que me vedam.

Disponho de tempo para conhecer o museu interno? Sim, disponho. O que vai contar, no final, é o lado amistoso.

Tomamos café junto à cabeça de um mafioso com a cara perfurada por três balas. Está há trinta anos na vitrine. Existe uma fórmula para conservar a cor da pele.

Ele nomeia os "cadáveres judiciais" e eu lhe formulo o problema: se eu possuo a foto de um cadáver judicial - quer dizer, com circunstâncias que dão lugar à intervenção da polícia e da Justiça -, mas desconheço nome e qualquer outra referência, como pode ser identificado?

Menciona o arquivo de pessoas desaparecidas, o protocolo de tudo o que se passou na autópsia, a memória visual dos técnicos, o critério seletivo que fecha o campo de investigação determinando o sexo, a idade aproximada, a época em que morreu (pela roupa), o ambiente e muito mais.

- Então, é possível?

- Absolutamente possível.

Conseqüentemente, extraio as fotos e peço a identificação e a história.

Recebe-as, observa-as, separa-as e diz:

- Aparentemente, são suicidas.

- São suicidas.

Então ele diz:

- Absolutamente impossível.

Ao sair, passamos pelos gabinetes. Há uma moça de avental branco e de pele muito branca. Ela me nota. É alguma coisa.

 *   *   *

Ando para escolher um restaurante com duas virtudes: peixe na grelha e pessoas que eu não conheça e que não me falem do que eu já sei, do que sai nos jornais, formamos opinião nas mesmas revistas.

Coincido diante do menu da vitrine com um turista que me pergunta onde se pode comer pratos típicos, e muda de idéia, não sei se adivinha o que eu estava procurando para o meu almoço: quer que o informe como se chega ao aquário. Finalmente, me agradece e declara: "Têm uma cidade muito bonita, vocês", e a este cumprimento respondo que ele não pode dizer "têm", porque eu não tenho nada, a cidade não é minha. Talvez nós não tenhamos nos entendido bem, porque ele disse: "Ah, o senhor tampouco é daqui".

É a época, e vêem-se muitos turistas, as turistas "são muito vistas", elas querem assim, o que se torna muito agradável.

Justamente, ontem à noite eu sonhei de novo que estava andando nu.
Antonio di Benetto

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Nota : Editor

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