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DEPRESSÃO PODE NOS TORNAR MELHORES - 3

Minha mãe morreu e eu ganhei um apartamento com vista para o mar. Uma ilha distante — da vida que costumávamos viver, ao menos. Depois que eu saí de casa e meu pai morreu de câncer de pulmão, minha mãe, que costumava não sorrir para não causar rugas de expressão, decidiu torrar o resto da vida sob o sol. Eu nunca fui visitá-la — não naquela ilha, ao menos. Nos encontrávamos quando ela vinha a São Paulo, no Natal, na casa da minha tia, no Dia das Mães. Agora eu me encontrava numa casa estranha, numa nova vizinhança, com uma vizinha explicando onde minha mãe guardava as contas, onde guardava o sal.

Fui até a ilha cuidar do enterro, dar baixa nos papéis, ventilar o apartamento. Pretendia vender a propriedade, mas ponderava se não podia viver por lá. Deixado há três meses de um longo namoro, suspeitando que a qualquer momento eu podia ser demitido, viajei com o leve prurido da possibilidade que, se eu fosse outra pessoa, vivendo aquela minha mesma vida, eu poderia deixar tudo para trás. Deixar o quê?

Deixando o sol e o sal entrarem pela janela, aquela balneabilidade toda entre paredes, reafirmei a mim mesmo que eu não poderia ficar por lá. Acendi um cigarro tentando recuperar o carbono da cidade. Abri gavetas, peguei papéis, decidi ser rápido e objetivo. Minha camisa era escura e pesada demais para aquele clima, eu suava. A vizinha pareceu reparar na minha palidez — me olhava com pena — mas não ousaria sugerir que eu aproveitasse a praia; o luto me absolvia de ser feliz.

Eu voltava pelo calçadão no dia seguinte. Sábado de praia, ainda de manhã. Tive de ir cedo ao escritório do advogado, ou teria de esperar até segunda. Eu pensava de fato quanto tempo teria de ficar. Quanto tempo demoraria para vender o apartamento. Se eu teria de ficar por lá. Se seria capaz de cuidar de todos os detalhes, de todos os cuidados, não podia apenas deixar minha mãe partir? A morte é uma lenta e dolorosa burocracia — mesmo quando se morre de um câncer de pele fulminante, como minha mãe. Talvez não tenha sido exatamente assim, a vizinha deixou implícito. Já fazia alguns meses que minha mãe descobrira; estava se tratando em casa, silenciosamente. Quem sabe com a ajuda das amigas — a vizinha guardava isso como um rancor contra mim? Eu voltava pelo calçadão, pensando, vendo todas aquelas pessoas queimando sob o sol...

Uma felicidade intensa refletia da areia em mim. Lamentei não ter passado protetor. Abri a camisa o máximo que pude, e ainda não pude conter a vergonha da magreza generalizada, a gordura nos lugares errados, os pelos escuros e indecisos em minha pele pálida. Pensei se todos aqueles olhares ao redor eram de pena, ou nojo, mas as pessoas não conseguiam deixar de sorrir.

Um ruflar de asas me fez levantar o olhar. Um urubu pousava num poste próximo. Tão vestidinho de preto, veja só, de luto como eu. Todos aqueles mamíferos despidos na praia, e o urubu circunspecto e soturno, como eu.

Mais à frente, mais um.

Um segundo urubu pousou num poste próximo, quando eu passava. Estão me seguindo? Me perguntei. O segundo urubu também olhava para mim. De repente era como uma figura bi-dimensional, que parece sempre estar nos olhando, onde quer que estejamos. Essa é a mágica dos urubus, pensei eu, essa é a mágica da natureza, seu truque de sobrevivência. Parecem que estão sempre alerta, sempre nos olhando, onde quer que estejam. Um terceiro urubu pousou no próximo poste, assim que passei.

Na praia, as pessoas sorriam e se esqueciam, nadavam à superfície, dançavam o Rebolation. Não notavam os urubus nem o que se passava comigo. Logo, todos os postes da orla, do calçadão em frente à praia, estavam tomados pelos pássaros.

Cheguei no apartamento e tranquei a porta. Eu pingava. Tirei minha camisa encharcada de suor. Meu corpo não fora feito para aquilo. De repente, meu corpo se adaptava àquilo? As glândulas se ativando, a pele se preparando para o sol. Eu me transformando num mamífero despido, como aqueles que tostavam e se esqueciam, meu corpo se moldando para dançar o Rebolation. Tomei uma ducha fria para interromper a metamorfose.

Olhei pela janela, os urubus ainda estavam lá. Com aquele olhar bi-dimensional, olhando para a mim e para a praia. E as pessoas ainda tostando, bebendo, dançando sob o sol e o mar. Já nem se lembravam de mim, pálido animal de luto. Era começo de um sábado de sol, e as pessoas ainda teriam muito mais a queimar. Mas urubus ficavam à espreita. Eram pacientes. Os urubus poderiam esperar.

* Autor de seis romances, o escritor de 32 anos escreveu conto sobre o lado bom da depressão
Imagem :  por dani m.

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Nota : Editor

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1 comentários:

  1. aline vanessa pereira31 de outubro de 2010 09:41

    ja nao sei mais o que fazer da minha vida,pois sei que tem uma pessoa no mundo que me odeia e e por isso que hoje eu estou assim,me sinto um nada no mundo uma pessoa que esta aqui so para atrapalhar as pessoas a viver ja nao sei mas o que fazer,ja tive varias tentativas de me matar mas no fim sempre chegava alguem e me impedia de me matar.Vivo chorando pelos cantos sosinha nao tenho vontade de sair nem de sorrir,ja tentei mas foi pior do que eu imajinei.nao quero mais viver neste mundo de magoa e tristeza

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